O gestor tranqüilo
Confiante que o Brasil está protegido da crise, o economista Gustavo Franco rejeita a ameaça de uma bolha de crédito
Rita Tavares e Luís Eduardo Leal
À frente da gestora de recursos Rio Bravo, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco olha com tranqüilidade a crise nos Estados Unidos. “O curioso é que não só o Brasil está imune ou bastante protegido da crise. Também vale para o resto da periferia”, diz, com a voz pausada. Está também muito otimista com o futuro e acredita que o Brasil ingressou em novo patamar, que será coroado pela concessão do grau de investimento pelas agências de risco. Ele explicou suas expectativas em entrevista a Estadão Investimentos:
No final dos anos 90, o mundo e, consequentemente, o Brasil enfrentaram uma sucessão de crises, a asiática, a da Rússia, a do fundo LTCM nos Estados Unidos e, por fim, a crise argentina. Nas duas primeiras, o senhor estava no comando do Banco Central e foi um dos negociadores de um pacote de ajuda com o FMI recorde, de US$ 41 bilhões. A atual crise de crédito, que começou nos EUA e se espalhou por outros países, é menos nociva?
Acho que começa pelo país. O Brasil de 1997, 98 ainda estava muito próximo do País que tinha recém-abandonado a inflação e estava lidando ainda com muitas outras dificuldades domésticas. Depois dos dois primeiros anos do real, nós não tivemos complicação externa nenhuma. Ao contrário, foi um período parecido com esse agora, de bonança cambial, mas que para nos, do Banco Central, foi como a crise do subprime, (porque) eram os nossos bancos. Nós tivemos 120 liquidações entre 1994 e 97. Com o acordo com o Fundo, nós iniciamos o ano de 1999 com superávit primário recorde, onde permanecemos desde então. Não é porque eu fui governo, mas eu gosto de pensar que houve um trabalho cumulativo. O mundo não começou com o presidente Lula nem com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Cada um fez sua parte em tornar o Brasil com uma economia mais robusta como ele é hoje. E essa é toda a diferença. E o curioso é que não é só o Brasil que está imune ou bastante protegido da crise. Também vale para o resto da periferia que assumiu uma expressão internacional diferente do que era naquele tempo.
Muitos economistas acreditam que a desaceleração ou recessão nos Estados Unidos ficará limitada a este ano, com recuperação no primeiro semestre de 2009. O senhor compartilha dessa avaliação?
Sim, compartilho. Acho que a maior parte dos analistas localiza a recuperação em algum momento no segundo semestre de 2008. A ver... independente disso, os efeitos aqui, exceto por alguma volatilidade no mercado, não serão muito relevantes. Quando um choque externo atinge o balanço de pagamentos [câmbio] e gera crise, a transmissão da recessão [da crise] é imediata e avassaladora. Quando não atinge, o impacto é muito pequeno. E o Brasil ainda é uma economia fechada. Era muito mais fechada em 1994, quando da crise mexicana e, naquela ocasião, o impacto foi zero. Ao contrário, com os efeitos expansionistas do Plano Real, o Brasil teve superaquecimento no primeiro semestre de 95 e tivemos de fazer um pacote para arrefecer a economia. Então, 1994 lembra um pouco agora, sendo que o Brasil é hoje uma economia mais aberta para Europa e China do que era para os Estados Unidos, que perderam participação no comércio exterior brasileiro. E os elementos que têm impulsionado o crescimento brasileiro são predominantemente ligados ao crédito e não vejo como eles possam ser atingidos pela turbulência internacional.
Neste início de 2008, os indicadores de crédito mostraram expansão incomum para a época. Não há risco de estarmos montando uma bolha insustentável?
Acho que não. A experiência de 1994-95 é importante porque, no limiar do real, os indicadores também mostravam crescimento do crédito [consumo e veículos], mas quem concedia crédito não eram instituições capitalizadas. Agora, o sistema está ultra capitalizado. O dinheiro dos IPOs fez que, na média, as instituições que se capitalizaram ficassem com índice de Basiléia de 30% a 40%. Então, eu não vejo sinal de bolha.
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