Pesquisa mostra diversas formas de escolher ações
CSN é exemplo de papel que une valorização, liquidez, dividendos e outros fatores avaliados no Ranking AE Empresas
Marcos Coronato, Teresa Navarro e Natalia Gómez
O pequeno poupador brasileiro teve, nos últimos quatro anos, um período ótimo para as aplicações na Bolsa – mas péssimo para aprender a planejar seus investimentos. O motivo foi exatamente o desempenho excepcional do mercado acionário, que deu a falsa impressão de que investir nesse tipo de ativo é fácil, pouco arriscado e garante retorno no curto prazo. Para o investidor que pensa em aplicar em ações de maneira mais madura, com maior margem de segurança e mirando no longo prazo, há uma regra básica: não escolher papéis apenas com base na valorização, seja num período passado, seja numa expectativa para o futuro. “As projeções de que uma ação vai subir devem ser vistas sempre com suspeita. O investidor não deve comprar só porque acredita que o papel vai subir. Isso não é tudo”, afirma Fernando Exel, presidente da Economática, empresa de consultoria e pesquisa financeira.
A pedido da Agência Estado, a Economática calcula anualmente o Ranking AE Empresas, que chega a sua oitava edição e classifica o desempenho de ações de acordo com sete critérios, como volatilidade e liquidez (veja o quadro). Foram avaliadas 161 empresas de capital aberto, com patrimônio líquido superior a R$ 10 milhões. O estudo indica os papéis que tenham não apenas se valorizado o máximo possível ao longo de um período, mas tenham conseguido isso de forma estável (sem altos e baixos), que tenham pago mais dividendos e sido fáceis de vender a qualquer momento – tudo isso acompanhado por melhora real nos resultados da empresa. No Ranking em 2008 (que utiliza os dados fechados de 2007), a empresa com melhor desempenho conjunto nesses critérios é a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) .
Entre os ótimos resultados obtidos pela CSN e que a colocaram no topo do Ranking está aquele mais visível pelos investidores: a valorização de 157% dos papéis ON da empresa no ano passado. Mas diversos fatores contribuíram para essa colocação. “Estamos colhendo os frutos dos investimentos que fizemos para ter uma operação integrada”, disse o presidente da empresa, Benjamin Steinbruch. “Por competência e sorte, investimos em setores que estão muito aquecidos.”
As ações da CSN encerraram o ano com relação entre o preço e o valor patrimonial por ação (P/VPA) de 5,4 vezes, indicativo de que os investidores têm uma elevada percepção de valor dos seus papéis. A empresa também se destacou pela variação do retorno sobre o patrimônio líquido (delta ROE), que subiu 24,2 pontos porcentuais.
A importância de uma avaliação mais completa de cada papel cresceu desde o ano passado. Com a volatilidade das bolsas, acentuada desde meados do ano passado em razão do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, o investidor passou a buscar empresas mais sólidas, cujas ações oscilem menos e sejam facilmente negociadas. São as chamadas ações de valor ou velho estoque, que em muitos momentos podem até subir menos que o Ibovespa, mas proporcionam retorno garantido aos investidores.
Esta edição do Ranking espelha a escolha dos investidores por solidez. Embora alguns indicadores utilizados para a classificação das empresas neutralizem o tamanho, das dez premiadas de 2007, seis estão entre as 27 maiores do Brasil em valor de mercado, segundo dados da Economática. “Em momento de oscilação intensa na bolsa, o investidor favorece ações com menos volatilidade e alta liquidez”, diz Exel. A ação mais líquida do Ranking foi a Petrobras. A combinação desses dois fatores é fundamental para que o investidor não perca dinheiro, caso seja obrigado a vender as ações em certo momento, por alguma emergência.
Papéis com alta volatilidade podem passar por períodos de baixa, mesmo apresentando valorização ao longo do tempo. Papéis com baixa liquidez são difíceis de transformar em dinheiro rapidamente ou tendem a se depreciar muito numa venda apressada. Por isso, voltaram à lista das dez primeiras colocadas os grandes bancos, com Bradesco e Itaú.
Outro fator obrigatório, para quem pensa no longo prazo, é o pagamento de dividendos. Trata-se da remuneração oferecida aos acionistas, com base no lucro da empresa, periodicamente (a maioria das companhias brasileiras costuma fazê-la anualmente; os grandes bancos adotam a distribuição mensal). O pagamento de dividendos robustos torna o papel mais atraente. Nesse quesito, o papel mais bem colocado foram as ações PN da AES Tietê.
Sustentabilidade e Governança
Além dos critérios de desempenho mais imediatos, dois tipos de exigência crescem em importância e ganham atenção de acionistas e da sociedade: boa governança corporativa e boas práticas de sustentabilidade. A primeira se refere à transparência e aos mecanismos de controle que protejam os interesses de todos os acionistas, incluindo os menores. Já a adoção de práticas sustentáveis significa que o impacto social e ambiental das atividades da empresa não inviabiliza a continuidade do negócio no longo prazo nem compromete a qualidade de vida das gerações atuais e futuras.
Por valorizar iniciativas nesses dois campos, desde o ano passado a Agência Estado criou duas novas premiações dentro do Ranking AE Empresas: o Destaque Novo Mercado e o Destaque Sustentabilidade, vencidos nesta edição por Positivo e Bradesco, respectivamente.
No primeiro, é reconhecida a empresa que está nesse segmento especial da Bovespa e proporcionou o melhor retorno ao acionista em 2007. No segundo, é apontada a companhia com melhor colocação no Ranking e que faça parte da carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).
Critérios de peso
O Ranking avalia as ações de acordo com os seguintes quesitos:
Variação do retorno sobre o patrimônio (delta ROE) – é um indicado de rentabilidade que relaciona lucro e patrimônio da companhia. Para o investidor, quanto maior o aumento do retorno, melhor.
Preço sobre lucro – é a relação entre o preço da ação e o lucro obtido pela companhia. Um P/L alto indica que os investidores esperam lucros crescentes da empresa.
Preço sobre valor patrimonial da ação – é a relação entre o preço do papel e o valor patrimonial por ação. Quanto maior o P/VPA, mais o mercado está disposto a pagar pelos papéis.
Dividendo sobre patrimônio líquido – é a soma dos dividendos e juros sobre o capital pagos divididos pelo patrimônio líquido. Mostra o retorno do investidor com o pagamento de dividendos.
Oscilação – é a variação (valorização ou desvalorização) da cotação da ação no período.
Volatilidade – mede o sobe-e-desce da ação. Um papel pouco volátil não registra alterações bruscas de preço. Quanto menor a volatilidade, melhor para o investidor.
Liquidez – quanto maior o número de ações da companhia no mercado, mais líquidos são os papéis, ou seja, mais fácil é negociá-los.
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